Ninho do Açor - minha terra

domingo, outubro 24, 2004

Prof. Domingos dos Santos Marques

Professor do Ensino Primário, nasceu em Ninho do Açor, em 1898. Em minha opinião nenhum homem marcou tão profundamente o Ninho do séc. XX como o Sr. prof. Domingos.

Do ponto de vista físico era de estaura mediana, com uma constituição de tipo picnico, exibindo um crânio volumoso e praticamente calvo. O seu rosto, de moldura larga, era cheio e corado, deixando adivinhar um carácter algo vulcânico. Os seus olhos tensos conferiam-lhe uma expressão dura tipo "Charles Bronson". Quando se irritava o seu pescoço grosso e curto como que inchava, ganhando uma cor quase purpúrea.

Com uma "fácies" assim e com o seu feitio explosivo não é de admirar que miúdos e graúdos lhe guardassem os dias santos. Era um homem que inspirava um temor reverencial. Nenhum aldeão passava por ele que não tirasse respeitosamente o chapéu. Não obstante o seu aspecto severo e circunspecto, possuía um carácter sério e um sentido de justiça muito apurado, pelo que muitas vezes era chamado a arbitrar pequenos litígios entre aldeões. A sua opinião era sempre ouvida com respeito e tinha quase sempre o sabor duma sentença saída dum tribunal de última instância.

Os garotos tinham um medo dele que se pelavam. Chamavam-lhe o "Cachaço Vermelho". A ele se deve a escola primária no extremo sul da povoação, um edifício que teve os seus tempos áureos mas que actualmente se encontra completamente em ruínas.

Não se pode dizer que o Sr. prof. Domingos fosse um homem de carácter brando. Quando os alunos descambavam nos problemas ou não atinavam com a tabuada logo a cana da índia ou a régua entravam em acção com ruído sinistro. Na época a pedagogia da bordoada imperava nas escolas parece que com sucesso garantido. A miudagem, dum modo geral, saía da escola a saber ler e escrever de modo escorreito e com a tabuada na ponta da língua. Sabiam quem era o primeiro rei de Portugal, não ignoravam que o corpo era constituído de cabeça, tronco e membros, conheciam os nomes dos caminhos de ferro, os rios, as serras e muito mais...

Era um professor competente com a fama de preparar bem os alunos para os exames, os quais tinham lugar em Castelo Branco. A sua excitabilidade nervosa predispunha-o, porém, para a hipertensão e a apoplexia. Algumas contrariedades económicas na velhice - de que foi culpado um seu sobrinho - precipitaram-lhe o fim. Faleceu em 1969 vítima de acidente vascular cerebral. Tinha 71 anos.

sábado, outubro 16, 2004

Museu Etnografico e Cultural de Ninho do Açor

Em tempos que ja' la' vao funcionou no Chao da Praça um antigo lagar de azeite que pertenceu ao Sr. Manuel da Costa Vaz. Era de concepçao muito primitiva, sendo constituido basicamente por um moinho com quatro galgas de granito, um enorme tronco de arvore que servia de prensa e um tanque ou lagariça. Em 1941 ainda trabalhava em pleno como se pode verificar pelo Livro de Registo Diario do Trabalho do Lagar. Examinando uma das paginas do citado livro ficamos a saber que no periodo de 22 de Novembro a 5 de Dezembro de 1941 deram ali entrada 1295 kg de azeitona.

Entre os utentes do lagar figuravam, alem dos herdeiros do antigo proprietario, outras pessoas como: Antonio Marques Nave, Caetano Rodrigues, Augusto Martins e Francisco Pires. Decerto por falta de rentabilidade o velho lagar foi obrigado a fechar as portas. A sua concepçao primitiva tornava-o, porem, numa reliquia de grande interesse museologico que seria de todo o interesse preservar para as futuras geraçoes. Foi o que se fez. Nasceu assim o Museu Etnografico e Cultural de Ninho do Açor que, alem do lagar propriamente dito, incorpora um pequeno espolio de artefactos ligados 'a vida rural: talhas, potes de azeite, alfaias agricolas, etc.. O museu conta ainda com dois velhos teares, nostalgica recordaçao duma antiga industria caseira que passou 'a historia.

Este curioso museu fica situado no Largo Antonio Carvalho Santiago, onde outrora se situava o Chao da Praça e a Horta da Fonte, tendo sido inaugurado a 10 de Setembro de 1994 com a presença das seguintes individualidades:

. Eng.º Alçada Rosa, Governador Civil do Distrito de Castelo Branco
. Dr. Cesar A. Vila franca, Presidente da Camara de Castelo Branco
. Eng.º Manuel Pires Carmona, Presidente da ADRAÇES

Seguem-se algumas imagens do interior do museu:

O moinho


Para uma maior ampliaçao faça click sobre a foto

Este engenho de moer azeitona utilizava a tecnologia da tracçao animal, uma tecnologia tao antiga que ja' existia no tempo dos romanos. A figura abaixo, da autoria de Milo Manara, da'-nos uma ideia do modo como o engenho funcionava.



Como se pode ver pela imagem este moinho romano tem a mesma concepçao do de Ninho do Açor. A principal diferença reside no numero de galgas.

A Prensa

A prensa era constituida por um volumoso tronco de arvore cujo peso fazia espremer as seiras contendo a azeitona esmagada.



Uma das extremidades do tronco ficava encastrada na parede e a outra apoiava-se num enorme parafuso que regulava a pressao sobre as seiras. (ver imagem)



Alem do lagar referido havia o dos irmaos Lourenços que pertenceu a D. Antonia Albuquerque da Costa, proprietaria do antigo morgadio. Mais tarde, por iniciativa do Sr. Capitao Joao da Costa Andrade, surgiria a Cooperativa de Olivicultura de Ninho do Açor e Tinalhas, um empreendimento que trouxe muitos beneficios ao povo.

sábado, outubro 02, 2004

Gente da minha terra

Biografias

Este tema, pela sua importancia, justifica por si so' um blog. Decidi por isso criar um e baptiza-lo como o nome de Gente da minha terra. Nele irao sendo debitadas as biografias que tenham qualquer tipo de ligaçao a Ninho do Açor ou ao termo de S. Vicente da Beira.

Neste momento constam do blog os seguintes nomes:

. Antonio da Cruz de Sousa
. Capitao Joao da Costa Andrade
. Capitao Fernao Dias
. Padre Joao da Costa Andrade

Para ter acesso 'as biografias citadas clicar em Gente da minha terra.

sábado, setembro 18, 2004

Centro de Saude de Ninho do Açor


A Junta de Freguesia de Ninho do Açor. No lado esquerdo do edificio encontra-se instalado o Centro de Saude.

Sobre o funcionamento do Centro de Saude de Ninho do Açor apenas me apetece dizer isto:

Bem-aventurados os que tem fome e sede de justiça, porque serao saciados.

E' tudo.

segunda-feira, setembro 13, 2004

Foral de S. Vicente da Beira - Quem o concedeu de facto?

Varios estudiosos e sites tem escrito que o foral de S. Vicente da Beira foi atribuido por D. Sancho I. Por exemplo, o Sr. tenente coronel Dr. Antonio Lopes Pires Nunes, em artigo publicado no jornal Reconquista,em 10-03-1995, escreveu:

Comemora-se no decorrente mes de Março, 0 VIII Centenario da atribuiçao do foral por D. Sancho I, que o autorizou, concedeu e confirmou...

A D. Maria do Carmo Ramos Prata, ao citar o autor atras referido, repete o mesmo erro no seu livro "Sao Vicente da Beira - uma vila medieval". Ora a verdade e' bem diferente. Quem na realidade deu foral a S. Vicente da Beira nao foi D. Sancho I mas sim seu filho D. Afonso ( o futuro D. Afonso II) como se pode ver claramente na seguinte passagem do foral:



Para ampliar o documento avance com o cursor sobre a foto e carregue no botao esquerdo do rato.

Neste pequeno extracto le-se:

Ego Rex alfonsus filius regis sancii una cum matre mea regina dulcia (...) volumus restaurare atque populare sancti uincentii locum. Damus et concedimus forum [et consuetudinem de elborensi ciuitate omnibus tam presentibus quam futuris qui in ea habitare uoluerint.]

ou seja:

Eu Rei Afonso, filho do rei Sancho juntamente com minha mae a rainha Dulce (...) queremos restaurar e povoar o lugar de Sao Vicente. Damos e concedemos foro e usos da cidade de Evora a todos, tanto aos presentes como aos futuros, que nela quiserem habitar.

Alem do principe D. Afonso e sua mae ha' ainda a mencionar mais dois concessores: D. Gonçalo Martins, prior de S. Jorge, e Frei Joao, da albergaria de Poiares. Todos os quatro em conjunto participavam do senhorio do lugar. D. Sancho I so' aparece em cena no fim do documento para sancionar o acto dos concessores:

Ego Rex Sanctius portugalensis roboro et concedo atque confirmo.

"Eu rei Sancho de Portugal corroboro e concedo e confirmo."

O rei D. Sancho I era concessor do foral apenas de jure, por mera formalidade juridica. Os concessores de facto eram aqueles que estao 'a cabeça do documento pois eram eles que dividiam entre si o senhorio do lugar e recebiam o respectivo foro.

Devo dizer que nao estou so' nesta interpretaçao. O Padre Antonio Carvalho da Costa, na sua "Corografia Portugueza" tambem e' da mesma opiniao ao escrever:

S. Vicente da Beira a quem deo foral El Rey D. Affonso o Segundo.

Se mais duvidas houvesse ha' ainda a Grande Enciclopedia Portuguesa Brasileira que tambem fala de D. Afonso e nao de D. Sancho I.

domingo, setembro 05, 2004


Ara votiva achada em S. Vicente da Beira

Ha gente que tem tanto respeito pelo copyright alheio como um ayatollah tem pelo Senhor da Caninha Verde. Para nao incorrer no mesmo delito dei-me ao trabalho de desenhar a pedra ao lado, apesar de ter 'a mao a respectiva foto. Esta encontra-se publicada em "Sao Vicente da Beira - uma vila medieval" de Maria do Carmo Ramos Prata.

Por inacreditavel que pareça a autora nao diz uma unica palavra sobre tao importante achado arqueologico, limitando-se simplesmente a publicar a foto no livro citado, sem direito sequer a uma curta legenda. Dado que Ninho do Açor pertenceu em tempos ao extinto concelho de S. Vicente da Beira, e atendendo 'a proximidade geografica das duas povoaçoes, achei que nao seria ma' ideia dedicar ao curioso achado algumas palavras.

Trata-se duma ara votiva, semelhante 'aquela que foi encontrada em Ninho do Açor, em 1906. E' feita em granito de grao grosso, encontrando-se relativamente bem conservada apesar de algumas mossas bem evidentes. No seu campo epigrafico esta' escrito:

ENDVPICI
O PELLICO
TANGINIF
V L ...S

Numa primeira analise, interpreto assim a inscriçao:

Endupicio Pellico Tangini Filius V(otum) L(ibens) A(nimo) S(oluit).

que eu traduzo do seguinte modo:

Pellico, filho de Tanginus, cumpriu com gosto e sinceridade o voto feito a Endupicius.

A ara acima referida devera' datar presumivelmente do sec. II ou III da nossa era.

Tanto o deus como o dedicante da ara nao constam da onomastica indigena cuja lista tenho 'a minha frente, apesar disso tenho serias razoes para crer que a leitura acima e' a mais verosimil, ja' que o antroponimo Pellico continua vivo na onomastica portuguesa e italiana, ambas de matriz latina. Por exemplo, Silvio Pellico e' o nome dum escritor italiano (1788-1854) e Silvio Pelico Lopes Ferreira Neto (1867-1935) o nome dum notavel professor de latim que foi reitor do Liceu Central Dr. Jose' Falcao, em Coimbra. Era um purista da lingua portuguesa e um profundo conhecedor da lingua e literatura latinas.

Nota: Pellico, onis - poderia ser o sobrenome de alguma gens do sul da Gardunha. Nesse caso o antroponimico poderia traduzir-se como "Pelicao" (com til no a). Uma hipotese que necessita de ser confirmada por uma analise mais exaustiva da onomastica lusitano-romana. Esta variante de Pellico tem o seu fundamento dado que a Grande Enciclopedia Portuguesa Brasileira faz referencia a um tal Francisco Pelicao, sacerdote secular da segunda metade do sec. XVIII.


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Inscriçao romana em Sarzedas - a imaginaçao dum padre...

Por volta de 1880, na aldeia de Sarzedas, a charrua dum lavrador desenterrou uma pedra de xisto na qual estaria escrito a seguinte insciçao:

VERATIA VERATI F
H S E
TER P.C.

Como os populares nao entendessem patavina do que estava ali escrito foram ter com o padre. Este tomou nota da inscriçao e foi para casa matutar no assunto. No sossego do lar atirou-se ao latinorio como gato a bofe disposto a nao deixar os seus creditos por maos alheias. Eis como ele desembrulhou o imbroglio:

VERATIA VERATI F(ilia) (reedificavit) H(oc oppidum) S(arzedensae) (e)T (concessi)T EI P(revilegium) C(ivitatis)

Nota: As palavras entre parenteses foram inventadas pelo padre para dar sentido 'a inscriçao.

Isto traduzido por ele da':

Viriata, filha de Viriato, reedificou este castelo de Sarzedas e concedeu-lhe o privilégio de cidade.

Boa imaginaçao, hein...

Em 1910, em "O Archeologo Português", vol. XV, Leite de Vasconcelos pos em cheque a razoabilidade da interpretaçao paroquial. Em 1982, os Drs. Jose' d'Encarnaçao e Manuel Leitao, ambos peritos em epigrafia, tentaram decifrar o enigma, decididos a por termo a uma controversia de muitos anos. Do seu labor nasceu a seguinte interpretaçao:

VERATIA VERATI(i) F(ilia)
H(ic) S(ita) E(st)
[MA vel PA]TER P(onendum).C(uravit)

que podera' ser traduzida da seguinte forma:

Aqui jaz Verácia, filha de Verácio. A mae (ou o pai) mandou colocar (esta memória).

A pedra foi encontrada num olival perto da igreja matriz de Sarzedas. Mais tarde alguem a partiu, tendo os pedaços sido aproveitados para construir um forno de cozer pao.

terça-feira, agosto 24, 2004


Um crime monstruoso na familia dos Costas

Situo o tragico acontecimento na segunda metade do sec. XVI. Sebastiao da Costa, por razoes que ignoro, matou a sua mae, "tendo sido degolado por isso". O documento donde extrai esta informaçao nao da' mais pormenores, mas o facto do matricida ter sido condenado 'a decapitaçao e nao 'a forca, e' um indicio de que o reu era de condiçao nobre. A forca, sendo considerado um suplicio degradante, estava reservado aos membros das classes populares.

Como se chamava a mae do tresloucado? Bom, eu sei o nome da infeliz, mas nao o publico aqui sem primeiro cruzar os meus dados com outras fontes.

domingo, agosto 22, 2004

Misterios por desvendar

1º misterio

Aqui esta'a um puzzle interessante para quem gosta de brincar ao Sherlock Holmes. A foto abaixo mostra-nos o portal que dava acesso ao patio do morgadio. No portal ainda hoje se pode ver o brasao dos Costas, cuja historia ainda ninguem se atreveu a narrar completamente. As informaçoes existentes, tanto quanto sei, sao escassas e duma grande inexactidao. Como exemplo, cito o caso duma reportagem publicada em tempos no Reconquista em que o autor afirmava que o brasao dizia respeito 'a antiga casa Albuquerque. Erro crasso. Basta conhecer um pouco de heraldica para se concluir da ilicitude de tal deduçao.




Nota:Para obter uma maior ampliaçao avance com o cursor sobre a foto e faça click com o botao esquerdo do rato.

Tambem o Sr. Capitao Joao da Costa Andrade nao foi muito feliz ao escrever sobre a familia dos Costas. Segundo ele o morgadio pertenceu, em tempos recuados, a Dona Maria de Sousa Refoios. Talvez, mas quando a seguir afirma que a citada senhora era casada com D. Fernando da Costa Pacheco e Ornelas, Morgado de Penedono, a sua credibilidade como genealogista sofre um grave rombo, ja' que tal afirmaçao esta' em completo desacordo com os dados que possuo.
Diz ainda que o morgadio pertenceu, em tempos mais recentes, a D. Antonia de Albuquerque, mas fica-se por aqui sem adiantar muito mais. Perante a penuria dos dados existentes podemos dizer que muito falta ainda descobrir, porque o que podemos enxergar neste momento nao passa da ponta do iceberg.

Para ja' varias questoes se levantam, as quais gostaria de ver respondidas:

. Quem foi o 1º proprietario do morgadio?
. Quem mandou colocar no portal o brasao dos Costas?
. Quem foram os ultimos herdeiros do morgadio?

Nota:Tenho aqui um apontamento que me diz que D. Antonia Albuquerque da Costa, a ultima proprietaria do morgadio,nunca casou. 'A data da sua morte (1933) deixou herdeiros sujeitos 'a jurisdiçao orfanologica. Entre os herdeiros a quem coube o morgadio figura uma sobrinha-neta, filha de Maria Burgos e Jose' Olaio Morao Lopes Montoya, cujo nome nao me foi ainda possivel apurar. Uma das herdeiras provaveis de D. Antonia seria Maria Domingas de Sousa Machado Burgos, filha de Domingos Burgos e de Marta Roma Marques de Sousa Machado, sobrinhos de D. Antonia. Pelos dados que possuo Maria Domingas teria 12 anos aquando do falecimento da sua tia-avo'.

O Brasao dos Costas

Na foto abaixo pode ver-se o brasao dos Costas. Encontra-se embutido no portal que da' acesso a um patio que comunicava com um lagar de azeite e um forno de cozer pao.



D. Antonio Caetano de Sousa, no seu livro "Grandes de Portugal", descreve o brasao dos Costas do seguinte modo:

As armas desta casa sao em campo vermelho, seis costas de prata, postas em tres faixas. Timbre: duas costas em aspa atadas com uma fita vermelha.

A penultima proprietaria do Morgadio foi D. Antonia Maria de Albuquerque da Costa Cardoso e Ornelas (1856-1933), neta materna do Dr. Francisco Rebelo de Albuquerque Mesquita e Castro, 2.º visconde de Oleiros, e neta paterna de D. Fernando da Costa Cardoso Pacheco e Ornelas, bacharel em leis, habilitado para ler no Paço em 1819. E' do pai e do avo paterno que lhe vem o apelido Costa, cujas raizes segui ate' ao sec. XV.

Sepultura no adro da igreja

'A entrada da igreja de S. Miguel existe uma lapide com uma inscriçao que leio do seguinte modo:

De Maria Pires, viuva do capitao Fernao Dias, e de seus herdeiros.
1...87


Esta data incompleta intrigou-me durante muitos anos. Agora sei referir-se ao ano de 1687, data em que, provavelmente, tera' falecido Maria Pires. Esta teria casado com Fernao Dias por volta de 1640. Do enlace nasceu Paulo Dias Leonardo, nascido em 1654, o qual casou com Leonor Antunes.

Fernao Dias e sua mulher, Maria Pires, foram a cepa de onde sairam alguns clerigos:

. Padre Bartolomeu Dias Leonardo
. Rev. Miguel Pires Leonardo
. Padre Dias Leonardo da Cruz

Em 1654 era Cura de Ninho do Açor o padre Manuel Leonardo que, nesse mesmo ano, foi padrinho de baptismo de Paulo Dias Leonardo, filho do referido casal. Tudo indica, a avaliar pelos onomasticos, que o padre seria irmao dum dos conjuges.

Uma pergunta final se impoe. A inscriçao diz que a sepultura e' de Maria Pires e de seus herdeiros. O nome de Fernao Dias figura na lapide como simples aposto do nome da mulher. Significara' isto que o capitao foi enterrado noutro lugar?

sexta-feira, agosto 20, 2004


Achados arqueologicos

Ara votiva - Que a influencia romana chegou a Ninho do Açor nao ha' a menor duvida. Prova disso e' a ara representada na gravura. Foi encontrada no fundo dum poço, no Chao de Joao Pedro, foreiro do antigo Morgadio. Como a pedra foi ali parar nao faço a minima ideia, mas e' quase certo que veio de outro lugar. A hipotese mais verosimil e' que seja originaria do «Sobreiral», uma propriedade que fica 500 metros a sul da povoaçao, onde existe uma estaçao arqueologica na qual, alias, ja' foram encontradas outras antigualhas.



Este importante achado foi adquirido pelo padre Manuel Martins, professor no antigo Colegio de S. Fiel, que depois o cedeu, em 1906, ao Sr. Francisco Tavares Proença Jr., distinto arqueologo e fundador do museu que tem o seu nome.

A inscriçao supra, depois de desdobrados os nexos e soltas as letras inclusas, diz o seguinte:

ARENTIAE ET ARENTIO MONTANUS TANGI [...]

Como se pode ver pela figura, a ara tem o fuste partido, faltando-lhe a parte inferior que contem a base e o resto da inscriçao. Apesar de amputada e' possivel arriscar uma reconstituiçao. Jose Manuel Garcia no seu livro "Epigrafia Lusitano-Romana do Museu Tavares Proença Junior" sugere a seguinte hipotese:

ARENTIAE ET ARENTIUS MONTANUS TANGINI V(otum) S(oluit)

que em traduçao um pouco livre significa:

"MONTANO, FILHO DE TANGINO, CUMPRIU O VOTO FEITO A ARENTIA E A ARENTIO."

A meu ver Montanus, que aparece na inscriçao como dedicante da ara, nao era romano de origem, mas um lusitano romanizado, isto e', um nativo que assimilou a cultura romana. Prova disso esta' no antroponimico Tanginus, seu pai, que e' um nome genuinamente lusitano e ate' dos mais comuns entre a onomastica indigena. Tambem os deuses, aos quais a ara e' dedicada, nao sao romanos. Tratam-se de teonimos lusitanos de grafia e fonetica alatinadas pelos autoctenes.

O Dr. Leite de Vasconcelos, na sua '''Religioes da Lusitania''', faz uma traduçao algo diferente:

"A ARENCIA E A ARENCIO (consagrou este monumento) MONTANO, filho de TANGI..."

A ara supra encontra-sa no Museu Francisco Tavares Proença Jr. desde 1910, onde pode ser visitada mas nao fotografada porque a tal se opoem as normas do IPM (Instituto Portugues de Museus).

Em 1975, numa visita ao museu, fiz um esboço da ara no meu bloco de apontamentos. Mais tarde, a partir do referido esboço, fiz um desenho mais elaborado, do qual lanço agora mao para ilustrar este artigo. E' lamentavel que no nosso pais oponham tantos obstaculos 'a divulgaçao fotografica do nosso patrimonio historico. Trata-se dum mau exemplo que nao e' seguido por paises com um patrimonio muito mais rico que o nosso, como e' o caso da França e da Italia, em cujos museus pude fotografar 'a vontade sem quaisquer obstaculos. Prova disso e' a foto abaixo que tirei no Museu do Louvre, na minha ultima visita pela Europa.



Bela escultura, hein? Podia acrescentar outras mas nao vale a pena.

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Nota:Para obter uma maior ampliaçao avance com o cursor sobre a foto e faça click com o botao esquerdo do rato.

Bractea: adereço ornamental ou amuleto?

Esta "joia da coroa" foi descoberta em Fevereiro de 1951 numa zona rustica conhecida por Sobreiral, situada a cerca de 500 m a sul da povoaçao de Ninho do Açor.
Segundo o Dr. Luis Pinto Garcia tanto pode tratar-se dum adereço ornamental como dum amuleto protector. Em qualquer dos casos uma coisa e' certa: o seu dono devia ser uma pessoa relativamente poderosa. O motivo desta presunçao assenta no facto da bractea ser feita de metal precioso. Com efeito trata-se duma peça de ourivesaria em ouro, laminada por martelagem, "com 50 cones, segundo a tecnica do repuxado" no dizer de Raquel Vilaça. No reverso a bractea possui uma pequena argola de fixaçao.
A que epoca remontara' este curioso achado? Talvez 'a fase final da Idade do Bronze ou ao periodo lusitano-romano. No primeiro caso a "joia" pode ter mais de 3000 anos; no segundo caso, pode ter 'a volta de 2000 anos. A peça, com cerca de 10 cm de diametro, encontra-se actualmente no Museu Etnografico de Belem.

quarta-feira, agosto 18, 2004

A Igreja Matriz



A igreja de S. Miguel ostenta na fachada principal a data de 1687. Nesse tempo era rei de Portugal D. Pedro II e a igreja não tinha o aspecto que hoje oferece aos nossos olhos. Em lugar da torre sineira havia um campanário ao qual se tinha acesso através duma escadaria de granito. As datas de 1935 e 1960 inscritas na fachada significam que o templo foi objecto de sucessivos restauros.
O acesso principal ao adro da igreja faz-se por uma escadaria em granito que deve datar de 1889, a fazer fe' na inscriçao que se encontra gravada num dos degraus.

A Capela de Santo Antonio

Ostenta na fachada principal a data de 1607. Isto significa que remonta ao periodo da dominaçao espanhola, ao tempo em que Portugal era governado por Filipe II (III de Espanha). O Cura de Ninho do Açor Joaquim Lourenço Marques, em carta manuscrita datada de 1758, refere-se 'a capela em palavras muito breves: Tem no fundo do lugar a Ermida de Santo Antonio que pertence aos moradores. E mais nao adianta.

Em Janeiro de 1915 realizou-se nesta capela um espectaculo teatral que teve bastante exito. Subiram 'a cena Os trinta botoes, O casamento do Descasca Milho e Os dois estudantes no prego. Animaram o "sarau" o meu avo Jose Domingos Rodrigues (1876-1940), que desempenhou o papel de "Ferro Velho", Simao Afonso (1888-1972), Herminia Cotovia e Antonio Domingos. Os ensaios tiveram lugar na casa do Sr. Padre Cura, sob a direcçao do sobrinho e afilhado Cap. Joao da Costa Andrade.

sexta-feira, agosto 13, 2004

O «rio» Ramalhoso

Este curso de agua aparece referenciado em 1758, numa carta do Cura Joaquim Lourenço Marques, paroco de Ninho do Açor, que se lhe refere nos seguintes termos:

Pelos limites deste lugar corre hum rio, a que se chama a Ribeirinha que tem o seu nascimento na serra da Villa de Sam Vicente por sima da Capela de Nossa Senhora da Orada, e seca no Estio, mas nam aonde nasce. Corre do Norte ao Sul. Cria alguns peixes a que chamam bordalos em pouca abundancia, pescaria livre. Cultivam-se as suas margens, mete-se na ribeyra da Ocreza nos limites do lugar de Cafede termo da villa de Castello Branco, em quanto passa pelos limites deste lugar tem somente dous moinhos e o uso das aguas he livre, tem quatro ou cinco legoas esta ribeira, passa por a villa de Sam Vicente pelos limites do Sobral, e dahi passa aos limites deste lugar e aos dos de Tinalhas, Povoa Rio de Moinhos e Cafede aonde fenece.


Situaçao Geografica

Ninho do Açor e' uma pequena freguesia situada a NNO de Castelo Branco, da qual dista cerca de 20 km e de cujo concelho faz parte.

Area - 11,9 km2
Populaçao - 473 habitantes (censo de 2001)
Densidade populacional: 39,7 hab/km2

Coordenadas geograficas:

Latitude - 39º 58' N
Longitude - 7º 32' 60'' W
Altitude - 381 m

O ponto mais elevado da freguesia situa-se no Canchal da Moura, onde se encontra um marco geodesico cuja cota e' de 438 m.

Da aldeia, olhando para norte, avista-se a escassos quilometros, a serra da Gardunha, em cujas faldas se aninham S. Vicente da Beira, Louriçal do Campo e Castelo Novo, povoaçoes cheias de evocaçoes historicas e que, outrora, marcavam o inicio do territorio de tras-serra, objecto do repovoamento dos nossos primeiros reis, conforme se pode constatar atraves de manuscritos que remontam ao sec. XII.

A serra recorta-se no ceu como uma graciosa muralha natural numa tom azul-escuro muito impressivo digno da tela do mais inspirado artista. No sitio da Senhora da Orada, nas imediaçoes de S. Vicente da Beira, nasce a ribeira do Ramalhoso, mais conhecida por Ribeirinha, a qual passa acerca de meia legua da nossa terra, pelo lado de nascente, continuando o seu percurso ate' Povoa de Rio de Moinhos, donde num ultimo folego corre a lançar-se nos braços do Ocreza, la' para as bandas de Cafede, onde desagua.

Direccionando os olhos para o poente avista-se a zona do azinhal, tendo como pano de fundo as serras de Alveolos e do Muradal, para la' das quais se encontra o Zezere serpenteando por entre as montanhas, em lanços ora remansosos ora selvagens, num murmurio onde, 'as vezes, em delirios de imaginaçao, me parece ouvir as lamurias duma ninfa cantando:

Meu coraçao chora, chora,
Pensa em ti sem descansar
Que o Zezere vai dar ao Tejo
E o Tejo vai dar ao mar.


Nota de abertura

Antes de tudo o mais desejo exprimir as boas vindas a todos os conterraneos que visitarem este meu blog. O objectivo deste projecto e', por um lado, dar a conhecer a historia da nossa terra e, por outro, proporcionar entre mim e os visitantes uma eventual troca de dados, tendo em vista a reuniao de material que possa servir de base a uma monografia actualizada de Ninho do Açor.

E' meu objectivo tornar este blog cada vez mais interactivo de modo a que todos possam participar activamente neste projecto, esperando naturalmente que o feed-back resultante do fluxo de informaçoes sirva para estimular sinergias, suscitar entusiasmos, tendo em vista o objectivo anunciado.